GUIA · ATLETA FEMININA

Mulheres no endurance: ciclo menstrual, ferro e RED-S

Quase 80% das atletas femininas reportam sintomas menstruais que afetam treino, até 58% das corredoras de endurance vivem em défice energético, e 1 em cada 3 tem deficiência de ferro. Este guia, ancorado em 16 papers Q1/Q2 e nos consensos IOC RED-S 2023 e IOC Menstrual Cycle 2021, entrega o que precisas de saber.

Atleta feminina, descida em trail costeiro atlântico ao pôr-do-sol, jersey escuro com detalhe lima, vista lateral em falésia portuguesa

TL;DR. A literatura de nutrição desportiva está esmagadoramente baseada em sujeitos masculinos. Para a atleta feminina, há cinco áreas onde as recomendações genéricas falham: RED-S (síndrome de défice energético crónico que afeta 18 a 58% das endurance), ferro (15 a 35% em deficiência), hidratação (estrogénio e progesterona alteram retenção de sódio), proteína (1.4 a 1.8 g/kg/dia, sobe para 1.6 a 2.2 em masters) e peri-menopausa/menopausa (creatina 5 g/dia, treino resistido obrigatório, MHT como coadjuvante). Os consensos IOC RED-S 2023, IOC Menstrual Cycle 2021 e Sims 2023 (ISSN) são a fundação deste guia.

Porque é que as recomendações genéricas falham para mulheres

As recomendações clássicas de nutrição desportiva foram construídas em estudos com sujeitos predominantemente masculinos. As atletas femininas têm fisiologia diferente em quatro eixos críticos: variação hormonal cíclica que altera substrato e tolerância, perdas de ferro pela menstruação, retenção de fluidos modulada por estrogénio e progesterona, e suscetibilidade aumentada a défice energético crónico. Aplicar as recomendações genéricas sem ajuste pode comprometer saúde a longo prazo.

A consensus position de Elliott-Sale et al. publicada na Sports Medicine em 2021 reconheceu explicitamente que a investigação prévia tem qualidade metodológica baixa, em grande parte porque não verifica fase do ciclo com hormonas séricas e generaliza a partir de amostras pequenas. A meta-análise de 78 estudos por McNulty et al. (2020) na Sports Medicine concluiu que o efeito do ciclo menstrual em performance é trivial em média, mas a variabilidade individual é enorme. Praticamente, isto significa: tu, atleta amadora, deves identificar o teu padrão pessoal antes de ajustar treino.

Por outro lado, há áreas onde as diferenças não são triviais e onde a aplicação cega de recomendações masculinas causa danos. Holtzman e Ackerman (2021) propuseram uma pirâmide de prioridades específica feminina: primeiro energia disponível, depois hidratação, depois macros (hidratos 6 a 10 g/kg/dia em endurance, proteína 1.4 a 1.8 g/kg/dia), micronutrientes (ferro, cálcio, vitamina D, folato) e timing. Salta a primeira camada e nenhuma das outras funciona.

As cinco fases do ciclo menstrual e o que muda

O ciclo de referência tem 28 dias. Conhecer as cinco fases ajuda-te a antecipar como te vais sentir e ajustar a nutrição em vez de lutar contra o corpo. O dia 1 é o primeiro dia de fluxo menstrual.

Dias 1 a 5

Folicular precoce

Estrogénio e progesterona em mínimo. Menstruação activa. Perdas de ferro. Algumas atletas reportam mais fadiga; outras sentem-se bem após dia 2. Reforça ferro e energia.

Dias 6 a 12

Folicular tardia

Estrogénio sobe progressivamente. Sensibilidade a insulina mais alta. Janela tipicamente boa para treino de alta intensidade e ganhos de força.

Dia 13 a 14

Ovulatória

Pico de LH e estrogénio. Temperatura corporal sobe ligeiramente. Risco aumentado de lesão de joelho (LCA) por relaxamento ligamentar. Atenção em descidas técnicas.

Dias 15 a 23

Lútea média

Estrogénio e progesterona altos. Maior oxidação de hidratos e retenção de sódio. Aumenta sódio em sessões longas. Bom em endurance constante, pior em intensidade alta repetida.

Dias 24 a 28

Lútea tardia

Ambas hormonas em queda. Síndrome pré-menstrual: sensibilidade GI aumentada, sono pior, retenção de fluidos. Reduz expectativas de PRs. Foca em técnica e volume.

O estudo Bruinvels et al. (2021) no British Journal of Sports Medicine, com 6 812 mulheres recreativas via Strava, encontrou que 78% reportam sintomas que afetam o treino. Não ignores a dor menstrual nem a fadiga cíclica: valida a tua experiência e usa-a para planear.

O que é o RED-S e como reconhecer os sinais

RED-S (Relative Energy Deficiency in Sport) é a síndrome descrita pelo IOC com origem em baixa energia disponível. Manifesta-se em 10 sistemas fisiológicos (menstrual, ósseo, hematológico, metabólico, gastrointestinal, imune, cardiovascular, endócrino, psicológico e na performance) e afeta 18 a 58% das atletas em endurance, segundo a revisão Logue et al. (2020) na Nutrients. O threshold operacional é energia disponível menor que 30 kcal por kg de massa magra por dia. O óptimo está em 45 kcal por kg de massa magra.

O consenso IOC 2023 (Mountjoy et al.) publicado no British Journal of Sports Medicine substituiu a antiga Female Athlete Triad. RED-S expande o modelo para incluir homens e reconhece que mais de 170 estudos publicados entre 2018 e 2023 trouxeram dados novos sobre disponibilidade de hidratos especificamente. A diagnose passa por uma Clinical Assessment Tool de três passos: screening inicial, estratificação de risco com semáforos e diagnose clínica.

Areta et al. (2021) no European Journal of Applied Physiology sintetizaram 28 estudos prospetivos e mostraram que basta menos de 5 dias de défice energético para reduzir pulsatilidade de LH (a hormona que regula o ciclo) e baixar T3, o que explica como rápido o corpo da atleta começa a desregular.

🚨 Red flags de RED-S a procurar

  1. Amenorreia secundária (mais de 3 meses sem ciclo) ou oligomenorreia (ciclos acima de 35 dias).
  2. Fadiga persistente apesar de descanso adequado, libido reduzida, sensação de frio constante.
  3. Fratura de stress recente, sobretudo em região atípica de carga.
  4. Perda de peso involuntária ou IMC abaixo de 18.5. Frequência cardíaca em repouso abaixo de 45 bpm sem ser de elite.
  5. Distúrbios gastrointestinais crónicos, obstipação ou bloating recorrente.
  6. Score LEAF-Q maior ou igual a 8 (questionário validado, faz com nutricionista).
Composição editorial em pratos com lima, dividida em quatro fases do ciclo: carne magra com espinafres, pão integral com banana, frango com vegetais, frutos vermelhos com frutos secos

Ferritina, ferro e anemia desportiva: o problema esquecido

O ferro é o problema número um da atleta feminina e simultaneamente o mais negligenciado pela medicina geral. Sim e colegas (2019) no European Journal of Applied Physiology sintetizaram a literatura: 15 a 35% das atletas femininas estão em deficiência de ferro, contra apenas 5 a 11% dos atletas masculinos. As perdas mensais via menstruação somam-se ao consumo aumentado por exercício e à inibição de absorção pelo treino.

O mecanismo é mediado pela hepcidina, uma hormona que bloqueia a absorção intestinal de ferro. McCormick e colegas (2019) na Medicine and Science in Sports and Exercise demonstraram que exercício à tarde mantém a hepcidina elevada até 24 horas, reduzindo a absorção. A solução prática é simples: ingere ferro de manhã, idealmente pós-treino matinal, com vitamina C. Evita café e chá uma hora antes ou depois.

O estudo Solberg e Reikvam (2023) na Nutrients confirmou que suplementação só tem efeito real quando ferritina baseline está abaixo de 30 ng/mL. Stoffel et al. (em revisão por Sim 2019) mostraram que suplementação em dias alternados absorve melhor que diária: o pico de hepcidina causado pelo suplemento dura ~24h e bloqueia a dose seguinte se for dada no dia seguinte. Dia sim, dia não, em manhã, é o protocolo correcto.

< 15 ng/mL
Deficiência com anemia provável. Médico imediato.
15 a 30 ng/mL
Deficiência sem anemia. Suplementar com prescrição.
30 a 50 ng/mL
Zona cinzenta. Monitorizar trimestralmente.
> 50 ng/mL
Target operacional para endurance feminino.

Em fontes alimentares, prioriza ferro heme: carne magra, peru, fígado, peixe. Para vegetarianas e veganas, lentilhas, espinafres, sementes de abóbora, tofu fortificado, sempre com vitamina C na mesma refeição. O calculador FuelRace ajusta proteína e ferro nas notas personalizadas se indicares perfil feminino e idade.

A tua hidratação muda durante o ciclo?

A taxa de suor não muda significativamente entre fases do ciclo, segundo Hutchins et al. (2021) na Nutrients. O que muda é o balanço de sódio. Sims e colegas (2021) na European Journal of Sport Science mostraram que estrogénio reduz o limiar osmótico para sede e libertação de vasopressina, e progesterona aumenta aldosterona. Na fase lútea média, isto traduz-se em maior retenção de sódio mas também maior diluição plasmática (cerca de 8% de queda de volume).

A implicação prática é específica: na fase lútea média, sobretudo em provas longas com calor, acrescenta 300 a 500 mg de sódio por hora ao plano base. Na fase lútea tardia, sobre-hidrata antes do treino com bebida isotónica para compensar a redução de volume plasmático. Pesa-te antes e depois de sessões longas para calibrar a taxa de suor pessoal; perda superior a 2% de peso significa que estás sub-hidratada.

Proteína: 0.32 g/kg por refeição, 1.4 a 1.8 g/kg/dia

O estudo de referência é Wooding e colegas (2017) na Medicine and Science in Sports and Exercise, que usou metodologia IAAO (indicator amino acid oxidation) para mostrar que mulheres ativas têm necessidades de proteína similares a homens. A recomendação prática é 1.4 a 1.8 g/kg/dia, distribuída por 4 a 5 refeições, com pelo menos 0.32 g/kg por refeição para activar máximamente a síntese proteica muscular.

Para 60 kg, isto significa 84 a 108 g de proteína por dia, em refeições de 20 a 25 g cada. Acima dos 40 anos, sobe ligeiramente para 0.4 g/kg por refeição na refeição pós-treino, porque a síntese proteica responde melhor a doses maiores em masters. Combina sempre com hidratos para promover recuperação de glicogénio.

Em endurance, a oxidação de hidratos durante exercício mantém-se essencial. Tarnopolsky (2008) e revisões posteriores confirmam que mulheres oxidam proporcionalmente mais lípidos e menos hidratos que homens em exercício submáximo, mas isto não significa que devem comer menos hidratos. Em pre-feed de sessões longas e em provas, a recomendação é a mesma: 6 a 10 g/kg/dia em treino pesado, 60 a 90 g/h durante a prova (combinado com o protocolo de treino do intestino que ensina a tolerar estas doses).

Taça com bordas verde-lima contendo espinafres, tâmaras, carne magra e chocolate preto, com limão cortado, frasco de ferro em vidro e iogurte natural em fundo escuro

Saúde óssea, contraceptivos e densidade mineral

A literatura é clara: atletas femininas em défice energético têm 4.5 vezes mais bone stress injuries em 12 meses, segundo Heikura et al. (2018) no International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism. O mecanismo combina hipoestrogenismo, hipoleptinemia e redução de IGF-1, todos consequências de energia disponível baixa crónica.

Sobre contraceptivos hormonais, Elliott-Sale et al. (2020) na Sports Medicine revisaram a literatura e concluíram que a pílula combinada não tem efeito significativo em performance aguda nem em ganhos de hipertrofia. No entanto, em adolescentes e atletas com histórico de stress fractures, a pílula combinada pode reduzir o pico de massa óssea, e nestes casos é preferível DIU não-hormonal ou progesterona-only. Discute sempre com a tua ginecologista; o método contraceptivo é uma decisão pessoal informada, não uma escolha de performance.

Peri-menopausa: o que muda entre os 35 e os 50

A peri-menopausa pode começar tão cedo como aos 35 anos e dura em média 4 a 8 anos até ao FMP (final menstrual period, 12 meses sem menstruação). Caracteriza-se por flutuação hormonal irregular: estrogénio e progesterona ainda presentes mas em padrões caóticos. Atletas peri-menopáusicas reportam sintomas tão severos como mulheres sedentárias e cerca de 60% indicam impacto directo no treino, sobretudo via qualidade do sono.

A queda de estrogénio acelera processos que antes estavam protegidos. Chidi-Ogbolu e Baar (2019) na Frontiers in Physiology mostraram que estrogénio é crítico para síntese de colagéneo tendinoso. Sem ele, tendinopatias do Aquiles, supraespinhoso e fáscia plantar aumentam substancialmente. Progride volume menos de 10% por semana, mantém trabalho excêntrico (saltos, descidas, calf raises lentos) e considera o protocolo Shaw/Baar: 15 a 20 g de gelatina ou colagéneo hidrolisado + 50 mg de vitamina C, 30 a 60 minutos antes de treino de impacto.

Em paralelo, a sensibilidade à insulina baixa. Cabre et al. (2022) na Menopause demonstraram que mulheres peri e pós-menopáusicas têm redução da oxidação de gordura em exercício submáximo e mais gordura visceral, mesmo com volume de treino igual. A estratégia "fasted training" deixa de ser indicada. Come 20 a 30 g de hidratos + 10 a 15 g de proteína antes de treinos matinais e prioriza HIIT e treino intervalado, que preservam sensibilidade à insulina melhor que sessões longas constantes.

Menopausa: proteína, creatina e o protocolo masters

A menopausa marca o início do estado low-estrogen sustentado. As prioridades nutricionais mudam radicalmente: proteína sobe para 1.6 a 2.2 g/kg/dia distribuída em 4 refeições com 0.4 g/kg por refeição (resistência anabólica), creatina monohidratada 3 a 5 g/dia torna-se a intervenção com melhor evidência custo-benefício para preservar massa muscular, e treino resistido 2 a 3 vezes por semana passa a ser não-negociável.

O conceito-chave é resistência anabólica: o músculo perde sensibilidade ao estímulo proteico. Moore (2021) na Sports Medicine sintetizou a literatura masters: atletas acima dos 35 precisam de 0.40 g/kg por refeição (vs 0.24 a 0.30 em jovens), com 2.5 a 3 g de leucina por refeição para activar o mTOR. Para uma atleta de 70 kg, isto é 28 a 35 g de proteína por refeição, 4 vezes por dia. Snacks típicos portugueses como tosta com fiambre (cerca de 8 g de proteína) são insuficientes: troca por iogurte grego com frutos secos, queijo fresco batido com bagas ou ovos com pão.

A creatina deixou de ser apenas suplemento de força. Sims et al. (2023) na Journal of the International Society of Sports Nutrition escreveram explicitamente: "Post-menopausal females benefit from bone health, mental health, and skeletal muscle size and function when consuming higher doses of creatine". O protocolo padrão é 5 g por dia, tomada constante (não cíclica), combinada com treino resistido 2 a 3 vezes por semana.

Sobre terapia hormonal da menopausa (MHT ou HRT), a literatura recente normalizou o seu uso em atletas masters saudáveis. Benefícios em densidade óssea, biomecânica tendinosa, sono e composição corporal (Smith-Ryan et al. 2022 na Sports Medicine). Não substitui treino resistido nem nutrição adequada, é coadjuvante. A decisão é sempre individual com ginecologista, especialmente se houver sintomatologia moderada a severa.

Densidade óssea pós-menopausa: a janela crítica dos 45 aos 55

A perda de densidade mineral óssea acelera dramaticamente em torno do FMP. O estudo SWAN (Greendale et al., 2012, J Bone Miner Res) mostrou que mulheres caucasianas perdem em média 2.46% de densidade lombar por ano durante 3 anos em torno do FMP, com perda total acumulada de 10.6% em 10 anos. A perda começa cerca de 1 ano antes da última menstruação.

A janela de intervenção mais crítica é dos 45 aos 55 anos. Estratégias que funcionam: acrescentar impacto ao treino de corrida (saltos verticais, sprints curtos), treino resistido pesado (3 a 5 reps a 80 a 90% 1RM), garantir 800 a 2.000 UI de vitamina D por dia e 1.200 mg de cálcio (priorizando dieta sobre suplemento), tomar creatina 5 g/dia e considerar MHT em discussão com ginecologista.

Sobre afrontamentos durante exercício, Witkowski et al. (2023) na Menopause concluíram que treino aeróbico e resistido moderado a vigoroso reduz a frequência subjectiva de afrontamentos a longo prazo, via melhoria do controlo termorregulatório central. Em dias muito quentes podem ser agudamente desencadeados, por isso pré-arrefece com gelo no pescoço, reforça hidratação com 500 a 700 mg de sódio por litro e considera treinar cedo de manhã ou ao fim do dia.

Tabela consolidada de recomendações por fase do ciclo

Esta é a referência rápida prática para a atleta amadora. Aplica-se ao ciclo de 28 dias; em ciclos diferentes ajusta proporcionalmente. As recomendações de hidratos, proteína e sódio são por kg de peso corporal.

Fase Dias Hidratos Proteína Ferro Hidratação
EF (menstruação) 1 a 5 6 a 8 g/kg 1.6 a 1.8 g/kg Reforçar com +18 mg/dia Normal
LF 6 a 13 6 a 8 g/kg 1.4 g/kg Manter Normal
OV 14 Até 10 g/kg em dias pesados 1.4 g/kg Manter +300 mg Na/h
ML 15 a 23 8 a 10 g/kg 1.6 g/kg Manter +500 mg Na/h em calor
LL 24 a 28 6 a 8 g/kg 1.6 g/kg Manter Sobre-hidratar pré-treino

Fontes: Holtzman e Ackerman 2021, Sims et al. 2021, McNulty et al. 2020.

Cinco hábitos para começares amanhã

  1. Pede análises de sangue completas. Hemograma, ferritina, hemoglobina, vitamina D, folato e TSH. Duas vezes por ano para atleta amadora, de 3 em 3 meses se há histórico de RED-S ou treinos acima de 8 horas semanais.
  2. Faz tracking do ciclo durante 3 meses. App simples (FitrWoman, Strava). Anota dia 1 da menstruação, energia subjectiva, sintomas. Em 3 ciclos identificas o teu padrão pessoal antes de ajustar o treino.
  3. Garante energia disponível. Em dias pesados, soma calorias da alimentação, subtrai calorias do exercício, divide pela massa magra. Se cai abaixo de 30 kcal por kg, aumenta a ingestão, sobretudo de hidratos.
  4. Reforça ferro de manhã com vitamina C. Pequeno-almoço pós-treino com ovos, espinafres, citrinos. Se ferritina abaixo de 30, suplementa em dias alternados de manhã com prescrição médica.
  5. Distribui proteína a 0.3 a 0.4 g/kg cada 3 a 4 horas. Refeição pós-treino sempre com 25 a 35 g de proteína de alta qualidade. Combina com hidratos.

Aplica à tua modalidade

O guia FuelRace base ajusta recomendações específicas femininas automaticamente quando indicas perfil no wizard. Vê os guias por modalidade:

Perguntas frequentes

Que análises de sangue pedir e com que frequência?

Duas vezes por ano para a atleta amadora regular: hemograma completo, ferritina, hemoglobina, vitamina D (25-hidroxivitamina D), folato e TSH. Se há suspeita de RED-S, pede também LH, FSH, estradiol e cortisol. Atletas que treinam em altitude ou bloqueiam menstruação devem fazer estas análises de 3 em 3 meses.

A pílula contraceptiva afeta a minha performance?

A evidência actual (Elliott-Sale 2020, Sports Medicine) não mostra efeito clinicamente significativo sobre performance aguda ou ganho de massa muscular. A pílula combinada em adolescentes pode reduzir pico de massa óssea, e em atletas com histórico de stress fractures prefere-se DIU não-hormonal ou progesterona-only. Discute sempre com a ginecologista a opção mais adequada ao teu perfil.

Devo adaptar o plano de race-day em cada fase do ciclo?

Sim, mas não dramaticamente. Mantém a estratégia base (hidratos por hora, hidratação) e ajusta sódio na fase lútea média (acrescenta 300 a 500 mg por hora) e tolerância gastrointestinal (na fase lútea tardia algumas atletas reportam mais sensibilidade). A maior parte da personalização do plano FuelRace cobre isto automaticamente.

Sou vegana, posso ter ferro suficiente?

Sim, mas requer planeamento. Ferro não-heme (leguminosas, espinafres, sementes de abóbora) absorve cerca de 1/3 do ferro heme da carne. Combina sempre com vitamina C na mesma refeição (citrinos, kiwi, pimento) para dobrar a absorção. Evita café e chá perto das refeições. Suplementação preventiva com ferro elementar (em dias alternados, de manhã) é frequentemente necessária em atletas femininas veganas com treino acima de 5 horas semanais.

Quanto tempo demora a recuperar de RED-S?

Depende da gravidade e duração. Energia disponível normalizada recupera função endócrina aguda em semanas (LH pulsatility, T3), mas recuperar densidade mineral óssea após amenorreia prolongada leva 12 a 24 meses, ou pode nunca recuperar totalmente. Recuperar a menstruação é o melhor marcador clínico. Trabalho com nutricionista desportivo e médica é essencial.

Sou peri-menopáusica, devo começar a tomar creatina?

Sim, em quase todos os casos. A literatura recente (Sims 2023, Smith-Ryan 2022) suporta 3 a 5 g/dia de creatina monohidratada, tomada constante, em mulheres peri e pós-menopáusicas. Benefícios para massa óssea, massa magra, função cognitiva e saúde mental. Combina com treino resistido 2 a 3 vezes por semana para maximizar efeito. Sem efeitos colaterais relevantes em dose padrão.

Faz sentido começar HRT/MHT como atleta amadora masters?

A decisão é individual com ginecologista, mas a literatura recente (Sims 2023, Cedars-Sinai 2024) normalizou o uso em atletas masters saudáveis. Benefícios em densidade óssea, tendões (preservação de propriedades biomecânicas), sono e composição corporal. Não substitui treino resistido nem nutrição, é coadjuvante. Em atletas com sintomatologia moderada a severa de menopausa (afrontamentos, sono, dores articulares), a discussão com ginecologista deve ser proactiva.

Referências científicas (23 papers Q1/Q2)

  1. Mountjoy M, Ackerman KE, Bailey DM, et al. 2023 International Olympic Committee's (IOC) consensus statement on Relative Energy Deficiency in Sport (REDs). Br J Sports Med. 2023;57(17):1073 a 1097. doi:10.1136/bjsports-2023-106994
  2. Elliott-Sale KJ, Minahan CL, de Jonge XAKJ, et al. Methodological considerations for studies in sport and exercise science with women as participants. Sports Med. 2021;51(5):843 a 861. doi:10.1007/s40279-021-01435-8
  3. McNulty KL, Elliott-Sale KJ, Dolan E, et al. The effects of menstrual cycle phase on exercise performance in eumenorrheic women: a systematic review and meta-analysis. Sports Med. 2020;50(10):1813 a 1827. doi:10.1007/s40279-020-01319-3
  4. Holtzman B, Ackerman KE. Recommendations and nutritional considerations for female athletes. Sports Med. 2021;51(Suppl 1):43 a 57. doi:10.1007/s40279-021-01508-8
  5. Bruinvels G, Goldsmith E, Blagrove R, et al. Prevalence and frequency of menstrual cycle symptoms in female athletes. Br J Sports Med. 2021;55(8):438 a 443. doi:10.1136/bjsports-2020-102792
  6. Areta JL, Taylor HL, Koehler K. Low energy availability: history, definition and evidence of its endocrine, metabolic and physiological effects. Eur J Appl Physiol. 2021;121(1):1 a 21. doi:10.1007/s00421-020-04516-0
  7. Logue DM, Madigan SM, Melin A, et al. Low energy availability in athletes 2020: an updated narrative review of prevalence, risk, within-day energy balance, knowledge, and impact on sports performance. Nutrients. 2020;12(3):835. doi:10.3390/nu12030835
  8. Stellingwerff T, Heikura IA, Meeusen R, et al. Overtraining syndrome (OTS) and relative energy deficiency in sport (RED-S): shared pathways, symptoms and complexities. Sports Med. 2021;51(11):2251 a 2280. doi:10.1007/s40279-021-01491-0
  9. Sim M, Garvican-Lewis LA, Cox GR, et al. Iron considerations for the athlete: a narrative review. Eur J Appl Physiol. 2019;119(7):1463 a 1478. doi:10.1007/s00421-019-04157-y
  10. McCormick R, Sim M, Dawson B, Peeling P. Refuelling the female athlete: understanding adaptive responses to exercise. Med Sci Sports Exerc. 2019;52(2):506 a 516. doi:10.1249/MSS.0000000000002131
  11. Solberg A, Reikvam H. Iron status and physical performance in athletes. Nutrients. 2023;15(20):4395. doi:10.3390/nu15204395
  12. Sims ST, Kerksick CM, Smith-Ryan AE, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: nutritional concerns of the female athlete. J Int Soc Sports Nutr. 2023;20(1):2204066. doi:10.1080/15502783.2023.2204066
  13. Hutchins KP, Borg DN, Bach AJE, et al. Female (under) representation in exercise thermoregulation research. Nutrients. 2021;13(12):4391. doi:10.3390/nu13124391
  14. Wooding DJ, Packer JE, Kato H, et al. Increased protein requirements in female athletes after variable-intensity exercise. Med Sci Sports Exerc. 2017;49(11):2297 a 2304. doi:10.1249/MSS.0000000000001366
  15. Heikura IA, Uusitalo ALT, Stellingwerff T, et al. Low energy availability is difficult to assess but outcomes have large impact on bone injury rates in elite distance athletes. Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2018;28(4):403 a 411. doi:10.1123/ijsnem.2017-0313
  16. Elliott-Sale KJ, McNulty KL, Ansdell P, et al. The effects of oral contraceptives on exercise performance in women: a systematic review and meta-analysis. Sports Med. 2020;50(10):1785 a 1812. doi:10.1007/s40279-020-01317-5
  17. Moore DR. Protein Requirements for Master Athletes: Just Older Versions of Their Younger Selves. Sports Med. 2021;51(Suppl 1):13 a 30. doi:10.1007/s40279-021-01510-0
  18. Smith-Ryan AE, Cabre HE, Moore SR. Active Women Across the Lifespan: Nutritional Ingredients to Support Health and Wellness. Sports Med. 2022;52(Suppl 1):101 a 117. doi:10.1007/s40279-022-01755-3
  19. Cabre HE, Moore SR, Smith-Ryan AE, et al. Metabolic effects of menopause: a cross-sectional characterization of body composition and exercise metabolism. Menopause. 2022;29(11):1297 a 1308. doi:10.1097/GME.0000000000001932
  20. Greendale GA, Sowers M, Han W, et al. Bone mineral density loss in relation to the final menstrual period in a multi-ethnic cohort: results from the Study of Women's Health Across the Nation (SWAN). J Bone Miner Res. 2012;27(1):111 a 118. doi:10.1002/jbmr.534
  21. Witkowski S, Evard R, Rickson JJ, et al. Physical activity and exercise for hot flashes: trigger or treatment? Menopause. 2023;30(2):218 a 224. doi:10.1097/GME.0000000000002107
  22. Chidi-Ogbolu N, Baar K. Effect of Estrogen on Musculoskeletal Performance and Injury Risk. Front Physiol. 2019;9:1834. doi:10.3389/fphys.2018.01834

Este guia integra-se com os 52 papers Q1/Q2 da nossa biblioteca e com a estratégia diária do calculador FuelRace.